Durante esse texto gostaria de explorar um tema pouco falado e, talvez, pouco observado por nós mesmos, que é a forma como tratamos a nós mesmos. Isso pode soar um pouco estranho ou então, não relevante para alguns, mesmo porque, normalmente quando falamos sobre isso, nos referimos a assuntos como autocuidado. Não que o autocuidado não seja importante, mas, de alguma forma, todos sabem o que isso quer dizer. Basicamente diz respeito a cuidados mais básicos relacionados a saúde e estética. Alguns também utilizam o termo para se referir a questões emocionais, mas, no geral, não é tão utilizado para essa finalidade.
Quando falo sobre a “maneira como nós nos tratamos”, me refiro a algo muito mais profundo do que o autocuidado. Me refiro a forma como nós nos comunicamos conosco, no nosso mais íntimo ser. Para exemplificar quero trazer a seguinte reflexão: Você lembra como você aprendeu, desde a sua infância, sobre como se deve tratar os outros? Lembra do que sua mãe/pai/professor/avó/avô, diziam pra você, sobre como você deveria tratar seu amigo ou colega? Provavelmente você está pensando em coisas como, “bom, eles diziam que eu deveria ser gentil, educado, que deveria oferecer ajuda quando necessário, que deveria ser um bom ouvinte e alguém que desse bons conselhos e consolos e que nunca deveria julgar”. Ou então, algo muito próximo disso.
Dado esse exemplo, eu pergunto a você: porque, muitas vezes, não conseguimos nos tratar, da mesma forma como aprendemos a tratar o outro? Sabe aquela voz que existe dentro da gente, e, com a qual ficamos dialogando o dia todo, e que fala pra fazermos ou não coisas, que julga se estamos certos ou errados? Então, é sobre esse autodiálogo que estou falando. Muitas vezes nem percebemos essa conversação com nós mesmos, mas, ela está ali o tempo todo, alerta a tudo o que acontece e “dando seu veredicto”. É como se fosse o juiz que nos comanda.
Esse juiz pode ser contra ou a favor de você. Depende de como ele foi ensinado, ao longo da vida. Pois, assim como nós aprendemos a tratar o outro, nós também aprendemos a nos tratar. Esse processo de aprendizagem acontece sem que nem percebamos. Assim, quando o juíz é durão, ele tem alto nível de exigência e cobrança, não se contenta com “pouco”, julga os erros arduamente, não perdoa deslizes e está sempre em busca da perfeição. Dessa forma, se você lida com um juíz interno assim, você se percebe se esforçando cada vez mais, tentando atingir níveis cada vez mais altos, não consegue identificar seus pontos positivos, até que um belo dia você se se percebe exausto e desmotivado para a vida. E, ainda por cima, se sente culpado por não ser bom o suficiente, pois, em algum momento, sempre falha.
Se você lida com um juíz mais “pacato”, você compreende que os erros fazem parte da vida e, que, as vezes você dará o seu melhor, e, mesmo assim, não alcançará o resultado desejado. Você se sente triste por isso, e mesmo assim, consegue se perdoar. Você também procura encontrar um meio termo entre a perfeição e aquilo que de fato é alcançável e até comemora as pequenas vitórias. Além disso, você tenta escutar seus sentimentos e sua vontades e consegue de desprender do “tem que” e do “precisa”, ou seja, de uma vida baseada em obrigações.
Como é seu juíz interior? Como ele faz você se tratar? Juízes muito durões podem acarretar uma série de sofrimentos emocionais intensos.
A boa notícia é que nós somos capazes de moldar esses juízes e aprender a nos tratarmos com empatia, tolerância, bondade e compaixão. A terapia é uma das fontes mais preciosas, que pode viabilizar esse aprendizado.